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Postagens

De como os vivos sabem dos mortos (pré-publicação)

Primeiro Capítulo De como a nossa personagem se dá conta da sua condição Quanto a um certo sentido das coisas, o mundo corria à pressa, sem ter em conta os destinos individuais. Naquele tempo e naquele país não adiantava de nada fazer silêncio revoltado ou gritar a todo o instante dizendo que se era vítima de uma qualquer forma de justiça. Pelas oito da noite, após um dia de trabalho, Josué Calisto, preparava-se para ver o noticiário pela sua televisão, eis que é seu espanto ver anunciado a abrir o jornal a notícia de que Josué Calisto estaria morto. A partir daquele dia tentou provar por todos os meios possíveis e impossíveis que afinal estava vivo. A conta do banco foi cancelada, ficando o banco com o dinheiro, na verdade Josué não deixara para os seus familiares nada da fortuna pessoal que amealhara nos anos produtivos da sua existência. Num dia que mostrava o sol numa beleza cintilante, Josué procurava essa beleza incandescente para o seu espírito. Sonho pouco e dormiu men...

Diálogo com as Sombras (Pré-Publicação)

Num dos passeios à noite, uma figura estranha aproximou-se de Custódio. Aproximou-se demais, enquanto ele descansava na relva. -Quem é que me persegue? -Boas noites, não tenhas receio que eu sou apenas uma sombra. -Uma sombra? Então vocês não são visíveis sobretudo quando há luz? -Não é bem isso. É que durante o dia arrastamo-nos atrás dos nossos originais e somos impedidos de falar, além do mais não consigo descansar porque o meu original revolve-se na cama em sonhos terríveis e abominantes, sabes, tenho até medo que mate a sua própria sombra. -Quem é o teu original? - Perguntou Custódio. -O meu original é um médico. Acho-o uma pessoa vazia. Não tem vida própria. Nem sequer mereceria ter uma sombra dedicada como eu. -Estranho e curioso quando falas nisso, pois não sei o que diria de mim a minha sombra. Por acaso não a conheces? -Não sei, as sombras reúnem-se à noite em antigos castelos ou junto a regatos para expor as suas observações sobre os seus originais, ou donos. Fala...

Pensarilho (4)

Estudar, insisto em estudar, em procurar nas palavras consolo e regra de vida, podia não ser assim, o meu conhecimento seria feito de experiência, mesmo assim não estou longe de tudo, pois como Drummond de Andrade, procuro a ode cristalina que não está nos dicionários.

Pensarilho (2)

Se a solidão me invade, o que poderei fazer senão amar o próximo, o que poderei fazer, se a noite cai, e o frio pousa sob meus ossos, o que poderei fazer para aquecer o coração? Não economicamente viável, dizia-se do homem e dos seus actos, o seu comportamento não arrastava simpatias, talvez tivesse o coração congelado, mas não, haveria de percorrer o mundo, haveria de fazer vingar os seus imensos sonhos, o passado perseguia-o como uma sombra, as energias faltavam, a sua luta era quixotesca, um dia, um dia teria felicidade, pois compreendera na solidão e do sofrimento, a sua condição, um dia o sol brilharia ao ponto de não ver sua sombra, a pique, sob o seu corpo adulto, e choveria logo a seguir, regenerando a mãe terra as suas sementes, acabaria num florilégio diverso, abraçado a sua amada, abraçado a uma outra vida. Muitas das vezes deixamos andar Não nos preocupamos com o amanhã Dizemos que o medo de ontem será O medo de amanhã Quando menos esperamo...

Estórias do Acaso (pré publicação)

O título deste texto tem por inspiração “A Música do Acaso”, de Paul Auster. Vem um realizador escrito a Lisboa, chamado Paul Auster e fala na FNAC, porque terá escolhido Lisboa para filmar. Preciso de saber o que leva um americano a interessar-se por Lisboa e Portugal. Vou seguir as filmagens, talvez me desloque até ao local das filmagens, parece que é Sintra ou o Alentejo. Sai publicado no Jornal de Letras qualquer coisa sobre ele, que tem um ar pesado, deve fumar imenso, isto da associação da literatura e do tabaco está desactualizado, é anacrónico. Talvez devesse dar importância ao facto de ter a oportunidade de escrever e talvez devesse ter sabido aproveitá-la melhor. Pena é que não tenha antecedentes e veja a escrita estritamente como uma necessidade biológica subjectiva. Mesmo assim, talvez gostasse de conhecer a filha de Paul Auster.

A Poção d'Amor (pré-publicação)

Primeiro Capítulo Eulália Iemanjá estava perto da morte. Nos arredores de Lisboa, exercia a profissão de bruxa, aconselhando os clientes sobre males do espírito e do corpo. Manou Artides a visitara imbuído de curiosidade científica e padecendo também de um mal estranho à sua própria existência. Sua filha, Noémia Iemanjá, mostrara-se em todo o seu esplendor ao interromper a consulta para dar o número da conta bancária onde se iria depositar o dinheiro. Artides ficou com o seu número de conta e conseguiu junto de um amigo bem colocado em instituições bancárias, a sua morada e número de telefone. Um dia, pois, resolveu telefonar-lhe. Contava não que Iemanjá lhe curasse dos males, mas sim Noémia, Iemanjá também todavia. Apresentou-se como amigo de um conhecido comum e adiantou que precisava de lhe falar a sós, pois era detective privado e ela corria perigo de vida. Ela ficou espantada e talvez um pouco assustada e isso só aguçou o seu desejo. (continua)